Canela do Ceilão a fundo · a substância

Cumarina: o que é, onde aparece e qual o limite por dia

Atualizado em 9 min de leitura17 fontes

O O cumarina · C₉H₆O₂
  • 0,1 mg/kg de peso por dia: a ingestão tolerável de cumarina (EFSA, 2004, mantida em 2008)
  • 2.650 a 7.017 mg/kg: médias por marca em 60 canelas moídas da República Tcheca (Blahová e Svobodová, 2012)
  • 2 mg/kg o limite brasileiro, que vale só para aromatizante adicionado (Anvisa, RDC 725/2022)

A cumarina (C₉H₆O₂) é uma substância aromática natural, de cheiro de feno, que aparece em teor alto na canela cássia, na fava-tonka e na aspérula-odorante[1][2]. A Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos (EFSA) fixou a ingestão diária tolerável em 0,1 mg por quilo de peso corporal, valor mantido em 2008[3][4]: 6 mg por dia para um adulto de 60 kg. Abaixo, onde ela aparece, quanto cada canela tem e por que o limite olha para o fígado.

Resposta curta

  • A cumarina é a 2H-cromen-2-ona, de fórmula C₉H₆O₂; pouco solúvel em água e livremente solúvel em óleos[1].
  • Limite: 0,1 mg por kg de peso por dia (EFSA), o mesmo que o instituto alemão BfR aplica inclusive a pessoas sensíveis[2]. Na França, a ANSES recomenda que os suplementos não passem de 4,8 mg por dia para 60 kg[4].
  • Cássia em pó do varejo alemão: de 1.740 a 7.670 mg/kg. Canela do Ceilão: no máximo 297 mg/kg nas análises do mesmo instituto[5].
  • A cumarina da canela não é anticoagulante: varfarina e dicumarol são outras moléculas, da mesma família[9][4].

Ficha rápida

Nome químico
2H-cromen-2-ona, C₉H₆O₂, 146,14 g/mol (PubChem)
Cheiro
Feno e baunilha (PubChem, BfR)
Onde aparece em teor alto
Cássia, fava-tonka, aspérula-odorante e meliloto (BfR)
Ingestão diária tolerável
0,1 mg por kg de peso (EFSA, 2004; mantida em 2008)
Adulto de 60 kg
6 mg de cumarina por dia (BfR)
Suplementos, recomendação francesa
Até 4,8 mg por dia para 60 kg (ANSES, 2021)
Limite no Brasil
2 mg/kg para a cumarina vinda de aromatizante adicionado (RDC 725/2022); nenhum para a cumarina da própria canela
Fígado
Canela com nota D no LiverTox, causa rara possível (NIH, 2026)

O que é a cumarina?

A cumarina é uma molécula aromática que muitas plantas produzem: o nome químico é 2H-cromen-2-ona, a fórmula é C₉H₆O₂ e a massa molar, 146,14 g/mol[1]. Tem cheiro de feno fresco e lembra baunilha. Na forma sintética, é usada em cosméticos e já foi usada como remédio para inchaço[2].

Duas propriedades explicam boa parte do que se mede nela. É pouco solúvel em água, cerca de 1.900 mg por litro a 20 °C, e livremente solúvel em óleos[1]. E aparece na casca da canela sobretudo na forma livre, enquanto na aspérula e no meliloto fica sobretudo ligada a um açúcar e pode ser liberada depois da secagem[4]. Nos laboratórios, é medida por cromatografia líquida e informada em miligramas por quilo de canela (mg/kg)[6].

Em que plantas e alimentos a cumarina aparece?

O BfR, instituto alemão de avaliação de risco, cita quatro fontes com teor relativamente alto: a canela do grupo cássia, a aspérula-odorante, a fava-tonka e o meliloto[2]. A fava-tonka (no Brasil, cumaru) costuma ter de 1% a 4% de cumarina, segundo a agência francesa ANSES[4].

Na tabela de teores que a ANSES adaptou de um estudo de 2008, a parte aérea da aspérula aparece com 203 mg/kg, paus de Cinnamomum cassia com 1.250 a 1.490 mg/kg e dois paus de canela do Ceilão com 2,40 e 0,86 mg/kg[4]. A canela, por ser usada em quantidade, é a fonte que mais pesa na dieta: por isso o limite é conversado quase sempre em gramas de canela. A diferença entre as duas canelas e como reconhecer cada uma estão no guia que compara canela do Ceilão e cássia.

Quais teores de cumarina já foram medidos na canela?

A cássia tem milhares de miligramas de cumarina por quilo; a canela do Ceilão, de não detectável a algumas centenas. No varejo alemão, a cássia em pó teve de 1.740 a 7.670 mg/kg (40 amostras) e a cássia em pau de abaixo da faixa de medição a 9.900 mg/kg (29 amostras); na canela do Ceilão, o máximo foi 297 mg/kg[5].

Cumarina medida em canela (mg/kg)
  • Cássia em pau, varejo alemão (29)[5]até 9.900
  • Cássia em pó, varejo alemão (40)[5]1.740–7.670
  • Canela moída tcheca (cássia), médias de 12 marcas[6]2.650–7.017
  • Pós vendidos como C. verum (20), RMN[8]até 1.120
  • Ceilão em pau (revisão de 2020)[7]até 486
  • Ceilão, varejo alemão (BfR)[5]até 297

Faixas de estudos e métodos diferentes: não se somam nem dão média. Cromatografia líquida no BfR e no estudo tcheco; ressonância magnética nuclear no de 2024. A faixa tcheca é de médias por marca; as outras, de amostras.

Os números de canela do Ceilão vêm de poucos estudos e variam com o método. Uma revisão de 2020 atribui ao mesmo levantamento alemão o máximo de 486 mg/kg em pau[7]. Um estudo de 2024 com pós vendidos como C. verum, de uma coleção canadense de ingredientes, encontrou cumarina em 17 de 20, de 0,07 a 1,12 mg por grama (70 a 1.120 mg/kg), medida por ressonância magnética nuclear; só três desses pós passaram por teste de DNA[8]. O rótulo também não basta: num estudo europeu de 2025, 4 das 44 amostras vendidas como Ceilão estavam total ou parcialmente trocadas por cássia[10].

O chá muda a conta, porque só parte da cumarina sai da casca para a água: os números medidos na xícara estão na página sobre a cumarina que passa da canela para o chá.

Qual é o limite de cumarina por dia?

A ingestão diária tolerável é de 0,1 mg de cumarina por quilo de peso corporal, fixada pela EFSA em 2004 e mantida no parecer de 2008[3][4]. Vale para a vida toda e para todas as fontes somadas, inclusive cosméticos. O valor veio de um estudo de dois anos em cães: sem efeito no fígado com 10 mg/kg por dia, dividido por um fator de segurança de 100[4].

Ingestão diária tolerável de cumarina por peso (0,1 mg × peso, conta nossa)
PesoCumarina por dia
15 kg1,5 mg
30 kg3 mg
60 kg6 mg
70 kg7 mg
90 kg9 mg

A regra tem uma folga curta, que precisa ser lida por inteiro. Segundo a ANSES, a EFSA considerou que passar até três vezes desse valor por uma ou duas semanas não preocupa, inclusive em grupos de risco, porque o efeito no fígado aparece depois de uma ou duas semanas de uso diário e regride ao parar[4]. O BfR, no parecer de 2012, cita a EFSA com os mesmos "três vezes"[5]. Não vale para uso contínuo.

Há duas referências mais rígidas, ambas sem força de lei no Brasil. A ANSES recomenda que os suplementos tragam no máximo 4,8 mg de cumarina por dia para quem pesa 60 kg, porque a comida já ocupa parte do limite[4]. Um grupo norueguês propôs, em 2012, um limite de 0,07 mg por kg; a EFSA mantém 0,1 mg desde 2008[11]. Quanto de cada canela cabe nesses números, para o seu peso, está na calculadora de canela por dia do guia.

Por que a cumarina pode fazer mal ao fígado?

A cumarina pode inflamar o fígado numa parte pequena das pessoas, efeito visto quando ela era usada como remédio. Nos ensaios da tabela da ANSES, com doses de 50 a 3.000 mg por dia, de 0,4% a 6% dos pacientes, conforme o estudo, tiveram alteração nos exames do fígado (enzimas ou bilirrubina), que voltaram ao normal depois que o remédio foi suspenso[4].

Ninguém sabe ainda quem são essas pessoas sensíveis. A suspeita sobre a enzima CYP2A6, que transforma a cumarina no fígado, não se confirmou: um ensaio com 231 pacientes não achou relação com duas variantes dessa enzima[9], e a ANSES considera que a hipótese não foi demonstrada[4]. Por isso o limite vale para todos.

Com canela, os relatos são raros. O LiverTox, base do NIH sobre lesão hepática por medicamentos e suplementos, dá à canela a nota D (causa rara possível) e registra ao menos três casos publicados, sem reexposição e sem a espécie de canela informada[12]. A ANSES orienta quem tem doença no fígado, ou usa remédio que pode afetar o fígado, a evitar alimentos ricos em canela e suplementos com cumarina[4]. O que se sabe de cada planta está na página sobre suplementos naturais e o fígado.

Cumarina é a mesma coisa que varfarina? Afina o sangue?

Cumarina e varfarina são substâncias diferentes. A cumarina da canela não tem ação anticoagulante; os remédios que afinam o sangue, como a varfarina e a femprocumona, são derivados sintéticos chamados cumarínicos, segundo o BfR, a agência austríaca AGES e uma revisão de 2022[13][14][9].

A ANSES explica a origem da confusão: o efeito anticoagulante é de moléculas duplas, como o dicumarol, que se forma quando o meliloto mofa; cumarinas simples não têm esse efeito[4]. A "cumarina" que aparece em bulas de remédio para varizes é a própria cumarina, usada para inchaço, e não um anticoagulante[2][4]. Esta página não trata de interação entre canela e anticoagulante: quem usa varfarina ou remédio parecido deve falar com o médico antes de qualquer suplemento.

Existe limite de cumarina na lei brasileira?

A lei brasileira só limita a cumarina em alimento com aromatizante adicionado. A RDC 725/2022 da Anvisa proíbe adicionar cumarina como tal e limita a que vem dos aromas a 2 mg por quilo de alimento, ou 10 mg/kg em bebidas alcoólicas e em certos doces com caramelo; a mesma norma proíbe óleo e extrato de fava-tonka como aromatizante[15].

A regra não alcança a cumarina da própria canela usada como ingrediente: a resolução exclui as plantas com aroma próprio que não são usadas só como fonte de aroma[15]. Num alimento ou suplemento, o limite de 2 mg/kg vale para a cumarina que vem de aromatizante adicionado. Na lista de constituintes de suplementos (IN 28/2018), não encontramos limite de cumarina[16]. A União Europeia segue a mesma lógica: fixa máximos para alimentos prontos, como 50 mg/kg em produtos de panificação tradicionais ou sazonais com canela no rótulo, e não para a canela em si[17]. A origem da canela que entra no país está na página sobre o que a importação diz da canela vendida no Brasil.

Perguntas frequentes

Cumarina faz mal?

Em excesso, pode inflamar o fígado de uma parte pequena das pessoas, efeito visto quando a cumarina era usada como remédio. Por isso a EFSA fixou a ingestão tolerável de 0,1 mg por kg de peso por dia, 6 mg para um adulto de 60 kg.

Canela do Ceilão tem cumarina?

Tem, em teor baixo e variável. No varejo alemão, o máximo foi 297 mg/kg; uma revisão atribui ao mesmo levantamento até 486 mg/kg em pau, e um estudo de 2024 mediu até 1.120 mg/kg em pós vendidos como C. verum. Na cássia, a média é de cerca de 3.000 mg/kg.

Cumarina afina o sangue?

A cumarina da canela, não. Os anticoagulantes como a varfarina são derivados sintéticos, chamados cumarínicos; o BfR e a ANSES dizem que a cumarina simples não tem ação anticoagulante. Quem usa anticoagulante deve falar com o médico antes de suplementos.

Qual o limite de cumarina por dia?

0,1 mg por quilo de peso corporal, segundo a EFSA: 6 mg para 60 kg, 7 mg para 70 kg. Vale para todas as fontes somadas. Para suplementos, a ANSES recomenda no máximo 4,8 mg por dia para 60 kg.

Como saber quanta cumarina tem uma canela?

Só por análise de laboratório, em geral por cromatografia líquida, com o resultado em mg por kg. O nome da espécie no rótulo ajuda, mas não garante: na Europa, 9% das amostras vendidas como Ceilão tinham cássia.

Existe limite de cumarina no Brasil?

Para a cumarina da própria canela, não encontramos. A RDC 725/2022 da Anvisa limita a 2 mg/kg a cumarina que vem de aromatizante adicionado, em qualquer alimento, e proíbe adicionar a cumarina pura.

Fontes

  1. Coumarin, CID 323 (propriedades, solubilidade e odor). PubChem, NCBI/NLM (NIH), 2026. pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
  2. Frequently Asked Questions on coumarin in cinnamon and other foods. BfR — Instituto Federal Alemão de Avaliação de Risco, 2012. bfr.bund.de
  3. Coumarin in flavourings and other food ingredients with flavouring properties (EFSA Journal 6(10):793, DOI 10.2903/j.efsa.2008.793). EFSA — Autoridade Europeia de Segurança dos Alimentos, 2008. efsa.europa.eu
  4. Opinion on the assessment of the risk of hepatotoxicity associated with the coumarin content of certain plants that can be consumed in food supplements or in other foodstuffs (2018-SA-0180). ANSES — Agência Nacional de Segurança Sanitária da França, 2021. anses.fr
  5. Neue Erkenntnisse zu Cumarin in Zimt (Stellungnahme Nr. 036/2012). BfR — Instituto Federal Alemão de Avaliação de Risco, 2012. bfr.bund.de
  6. Assessment of coumarin levels in ground cinnamon available in the Czech retail market (The Scientific World Journal 2012:263851). Blahová J, Svobodová Z, 2012. doi.org
  7. Coumarins in food and methods of their determination (Foods 9(5):645), tabela 4. Lončar M, Jakovljević M, Šubarić D e colegas, 2020. doi.org
  8. Nuclear magnetic resonance fingerprints and mini DNA markers for the authentication of cinnamon species ingredients used in food and natural health products (Plants 13(6):841). Ragupathy S, Thirugnanasambandam A, Vinayagam V, Newmaster SG, 2024. doi.org
  9. Coumarin-induced hepatotoxicity: a narrative review (Molecules 27(24):9063). Pitaro M, Croce N, Gallo V, Arienzo A, Salvatore G, Antonini G, 2022. doi.org
  10. High rate of safety and fraud issues in commercially available cinnamon (npj Science of Food 9:125). Ghidotti M, Behr M, Pietretti D e colegas — JRC, Comissão Europeia, 2025. doi.org
  11. Risk assessment of coumarin using the bench mark dose (BMD) approach (Food and Chemical Toxicology 50:903). Fotland TØ, Paulsen JE, Sanner T, Alexander J, Husøy T, 2012. doi.org
  12. Cinnamon (LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury), atualização de 1º de julho de 2026. Hoofnagle JH — NIDDK/NLM (NIH), 2026. ncbi.nlm.nih.gov
  13. Consumers who eat a lot of cinnamon currently have an overly high exposure to coumarin (Health Assessment No. 043/2006, substituído em 2012). BfR — Instituto Federal Alemão de Avaliação de Risco, 2006. bfr.bund.de
  14. Coumarin (Residues and contaminants from A to Z). AGES — Agência Austríaca de Saúde e Segurança Alimentar, 2025. ages.at
  15. Resolução RDC nº 725, de 1º de julho de 2022 (aditivos alimentares aromatizantes), anexo VIII. Anvisa, 2022. anvisalegis.datalegis.net
  16. Instrução Normativa IN nº 28, de 26 de julho de 2018 (constituintes, limites e alegações de suplementos), texto consolidado. Anvisa, 2018, com alterações até 2026. anvisalegis.datalegis.net
  17. Regulation (EC) No 1334/2008 on flavourings and certain food ingredients with flavouring properties, anexo III (texto original, cópia do legislation.gov.uk). Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia, 2008. legislation.gov.uk

Sobre esta página

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