Canela do Ceilão a fundo · o mercado
Canela vendida no Brasil é cássia? O que mostram a importação e os rótulos
- 2,3% da canela importada em 2025 foi declarada Ceilão (NCM 0906.11) (Comex Stat, 2025)
- 0,13% veio do Sri Lanka, de onde é nativa a canela do Ceilão (Comex Stat, 2025)
- 82 de 87 embalagens de canela no Sul não diziam a espécie (Scherner e colegas, 2022)
Nenhum laboratório brasileiro que encontramos mediu a espécie da canela vendida em supermercado, mas os dados oficiais dão uma pista forte. Em 2025, o Brasil importou 4,09 milhões de kg de canela; só 2,3% foram declarados como canela do Ceilão, e do Sri Lanka vieram 5.500 kg, 0,13% do total[1]. Num levantamento de 87 embalagens do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, 82 não traziam a espécie[2].
Resposta curta
- Em 2025, 95.544 kg dos 4,09 milhões de kg de canela importados entraram como canela do Ceilão (NCM 0906.11): 2,3%, conta nossa sobre o Comex Stat[1].
- De 2021 a 2025, 99,6% do que foi declarado como Ceilão veio do Vietnã e da Indonésia, e nada do Sri Lanka; do Sri Lanka, origem da canela do Ceilão, vieram 6.754 kg em cinco anos, 0,04% de toda a canela (contas nossas)[1].
- A classificação aduaneira é o que o importador declara, não análise de espécie; e na canela em pó a NCM nem separa a espécie[3].
- Em análises de laboratório na República Tcheca, na Itália e na Espanha, a maior parte da canela em pó do varejo era cássia[8][9]; na União Europeia, 9% das amostras vendidas como Ceilão tinham cássia[4].
Ficha rápida
- Canela importada pelo Brasil em 2025
- 4.087.124 kg; US$ 10,05 milhões FOB (Comex Stat)
- Declarada canela do Ceilão (NCM 0906.11)
- 95.544 kg, 2,3% do peso (2025)
- Origem da declarada Ceilão em 2025
- Vietnã, 96,8%; Indonésia, 3,1% (conta nossa)
- Do Sri Lanka em 2025
- 5.500 kg, 0,13%, classificados como "outras"
- Maior origem de toda a canela importada
- Vietnã, 85,2% do peso em 2025
- Embalagens sem espécie no rótulo
- 82 de 87, em 9 cidades do Sul (2021; conta nossa sobre o levantamento)
- Nome no rótulo
- Nome comum da espécie ou denominação consagrada pelo uso (RDC 716/2022)
Quanta canela o Brasil importa e de onde ela vem?
Em 2025, o Brasil importou 4.087.124 kg de canela, por US$ 10,05 milhões, e 85,2% do peso veio do Vietnã; depois vieram a Indonésia (8,5%) e a China (5,6%), segundo o Comex Stat, a base oficial de comércio exterior do governo federal[1]. Do Sri Lanka, onde a canela do Ceilão é nativa, vieram 5.500 kg, 0,13% do total.
| Código NCM | Peso líquido | Parte do peso | US$ por kg |
|---|---|---|---|
| 0906.11 · Canela (Cinnamomum zeylanicum), não triturada | 95.544 kg | 2,3% | 4,26 |
| 0906.19 · Outras, não trituradas | 2.595.243 kg | 63,5% | 2,75 |
| 0906.20 · Triturada ou em pó | 1.396.337 kg | 34,2% | 1,79 |
| Total | 4.087.124 kg | 100% | 2,46 |
Como o número foi tirado. Consulta à API do Comex Stat em 5 de outubro de 2026 (base atualizada em 4 de setembro de 2026): importação, códigos 0906.11.00, 0906.19.00 e 0906.20.00, por país de origem, de janeiro a dezembro de cada ano, em quilos líquidos e dólares FOB. Percentuais, preço por quilo e somas são contas nossas[1].
Quanto da canela importada é declarada como canela do Ceilão?
Pouca canela importada é declarada como canela do Ceilão: a parte no código 0906.11 foi de 0,85% a 6,96% do peso entre 2021 e 2025, e de 2,3% em 2025[1]. De 2021 a 2025, 99,6% do que entrou nesse código veio do Vietnã e da Indonésia; do Sri Lanka, nada (contas nossas). Do Sri Lanka, o Brasil comprou 6.754 kg de 2021 a 2025, 0,04% de tudo.
| Ano | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 |
|---|---|---|---|---|---|
| Total importadomil toneladas | 3,16 | 3,00 | 3,70 | 3,43 | 4,09 |
| Declarada Ceilão (0906.11)% do peso | 6,96 | 6,49 | 0,85 | 1,85 | 2,34 |
| Vinda do Sri Lankakg | 500 | 0 | 575 | 179 | 5.500 |
Comex Stat (MDIC), consulta de 05/10/2026[1]; percentuais e conversões são contas nossas. O código NCM é declaração do importador, não análise de espécie. O Sri Lanka entrou como pó em 2021, 2023 e 2024 e como "outras" em 2025, nunca no código 0906.11 até 2025.
De janeiro a agosto de 2026, em dado preliminar, 3,7% da canela importada foi declarada como Ceilão e 0,12% veio do Sri Lanka; pela primeira vez no período, 300 kg do Sri Lanka entraram no código de Ceilão[1].
A classificação na alfândega prova a espécie da canela?
O código aduaneiro (NCM) não prova a espécie da canela. A classificação é feita pelo importador na declaração de importação, não por uma análise da carga; ela diz como a canela foi classificada, não o que há dentro do pacote. E a canela em pó (0906.20) não tem divisão por espécie: só a canela não triturada tem um código próprio para Cinnamomum zeylanicum[3].
A origem declarada também não fecha a conta. Segundo o centro de pesquisa da Comissão Europeia (JRC), a cássia vem da China, do Vietnã, de Sumatra e Java, e a canela do Ceilão é nativa do Sri Lanka, com produção pequena em Seychelles, Madagascar e Índia[4]. O dado oficial, portanto, não confirma canela do Ceilão na origem declarada, mas também não é uma análise do que está em cada pacote.
O rótulo da canela precisa dizer a espécie?
A regra brasileira pede o nome da espécie no rótulo da canela, mas abre uma porta. A RDC 716/2022 da Anvisa manda que as especiarias sejam vendidas pelo nome comum da espécie vegetal, e o parágrafo único permite trocar esse nome por uma denominação consagrada pelo uso[5].
A lista oficial de especiarias separa "canela-da-china" (C. cassia), "canela-da-Indonésia" (C. burmannii) e "canela-do-ceilão" (C. zeylanicum)[6].
Na prática, a espécie quase nunca aparece. Num levantamento de 2021 em supermercados e lojas de produtos naturais de nove cidades do Sul, 82 das 87 embalagens de canela em pó e em casca não traziam a espécie; das cinco que traziam, três diziam "canela da China", nome comum de C. cassia[2]. Se "canela" sozinha vale como denominação consagrada é questão de interpretação, que a página não resolve. Para suplemento, a regra é outra, como mostra a página sobre o que cada linha do rótulo de 7.200 mg quer dizer.
Alguém já analisou em laboratório a canela vendida no Brasil?
Só em estudos pequenos e exploratórios. Não encontramos, até outubro de 2026, estudo brasileiro aberto que tenha identificado a espécie por DNA ou cromatografia e medido a cumarina da canela de supermercado (buscas no Europe PMC, na SciELO, na Biblioteca Digital de Teses e nos sites da Proteste e do Idec). O mais próximo é uma tese da USP de 2021, com 68 amostras de São Paulo[7].
Nessa tese, as amostras de pó rotuladas "Ceilão" tiveram perfil de minerais parecido com o da cássia em pó, o que a autora diz reforçar relatos de adulteração do pó; ela mesma chama o estudo de exploratório, e a cumarina não foi medida[7].
Fora do Brasil, a análise de laboratório já existe:
- República Tcheca: as 60 canelas moídas do varejo tinham cumarina de cássia[8].
- Espanha: 14 de 16 canelas moídas foram classificadas como cássia[9].
- Itália: um estudo de 2008 classificou 51% de 34 canelas como cássia e 39% como Ceilão[10]; segundo a leitura de outra equipe, cerca de 70% da canela moída era cássia, e 85% da casca inteira era Ceilão[8].
- União Europeia: 9% das amostras vendidas como Ceilão tinham cássia[4].
Como escolher canela do Ceilão no mercado brasileiro?
Prefira o pau, procure o nome da espécie e desconfie de canela do Ceilão vendida pelo preço da cássia. O pau de Ceilão é fino como papel e forma muitas camadas; a cássia tem casca grossa, com poucas camadas[11]. No pó, essa diferença não aparece. No rótulo, procure "canela-do-ceilão", Cinnamomum verum ou Cinnamomum zeylanicum[6].
O preço também conta uma história: a canela declarada como Ceilão entrou no país a US$ 4,26 por kg em 2025, contra US$ 2,75 das outras canelas não trituradas (conta nossa)[1]. Para pó, extrato ou cápsula, só o laudo do lote diz a espécie e a cumarina. A diferença entre as duas canelas, com a cumarina medida em cada uma, está no guia que explica Ceilão e cássia com a conta da cumarina, e o que a cumarina faz está na página sobre o limite de cumarina e o fígado.
Perguntas frequentes
A canela do supermercado é cássia?
Não há análise brasileira que responda com número. O dado oficial aponta nessa direção: em 2025, só 2,3% da canela importada foi declarada como Ceilão e 0,13% veio do Sri Lanka. Em análises de laboratório na República Tcheca, na Itália e na Espanha, a maior parte da canela em pó era cássia.
Canela da China é cássia?
Sim. Na lista oficial de especiarias da Anvisa, canela-da-china é Cinnamomum cassia, a cássia chinesa. Canela-da-Indonésia (C. burmannii) também é cássia; só a canela-do-ceilão é Cinnamomum zeylanicum, o mesmo que C. verum.
De onde vem a canela vendida no Brasil?
Quase toda é importada do Vietnã: 85,2% do peso em 2025, segundo o Comex Stat. Depois vêm Indonésia (8,5%) e China (5,6%). Do Sri Lanka, origem da canela do Ceilão, veio 0,13%.
Como ler o rótulo para saber se a canela em pó é do Ceilão?
Procure canela-do-ceilão ou o nome Cinnamomum verum ou zeylanicum; na lista oficial de especiarias da Anvisa, canela-da-china e canela-da-Indonésia são cássia. Só o laudo do lote confirma a espécie no pó.
A canela importada como Ceilão vem do Sri Lanka?
De 2021 a 2025, não: 99,6% do que entrou no código de canela do Ceilão (0906.11) veio do Vietnã e da Indonésia, e nenhum quilo do Sri Lanka; em 2026, até agosto, entraram 300 kg. O código é declaração do importador, e a canela do Ceilão pode ser cultivada fora do Sri Lanka em pequena escala.
Fontes
- Comex Stat: importação por NCM (0906.11.00, 0906.19.00 e 0906.20.00) e país de origem, 2021 a 2026, consulta de 5 de outubro de 2026. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Secex, 2026. comexstat.mdic.gov.br
- Avaliação das informações de canela vendida no Brasil em feiras, lojas de produtos naturais e mercados (Open Science Research IV, DOI 10.37885/220508768). Scherner M, Rodrigues AC, Salvati D (UTFPR), 2022. downloads.editoracientifica.com.br
- Tabela NCM no Comex Stat: códigos 0906.11.00, 0906.19.00 e 0906.20.00. MDIC, Secex (Comex Stat), 2026. api-comexstat.mdic.gov.br
- High rate of safety and fraud issues in commercially available cinnamon (npj Science of Food 9:125). Ghidotti M, Behr M, Pietretti D e colegas — JRC, Comissão Europeia, 2025. doi.org
- Resolução RDC nº 716, de 1º de julho de 2022 (requisitos sanitários de café, chás, especiarias e outros), art. 11. Anvisa, 2022. anvisalegis.datalegis.net
- Instrução Normativa IN nº 159, de 1º de julho de 2022 (espécies vegetais autorizadas como especiarias), anexo II. Anvisa, 2022, com alterações até 2025. anvisalegis.datalegis.net
- Metodologias analíticas alternativas para a avaliação de autenticidade de alimentos explorando análises hiperespectrais e fotometria por imagens digitais (tese de doutorado, CENA/USP), capítulo 7. Silva AFS, orientação de Rocha FRP, 2021. doi.org
- Assessment of coumarin levels in ground cinnamon available in the Czech retail market (The Scientific World Journal 2012:263851). Blahová J, Svobodová Z, 2012. doi.org
- Multivariate analysis of chemical markers to distinguish 'Ceylon' and 'Cassia' cinnamon in the Spanish market (Food Chemistry: X, 102484). Lipan L, Cano-Lamadrid M, Issa-Issa H e colegas, 2025. doi.org
- Coumarin and cinnamaldehyde in cinnamon marketed in Italy: a natural chemical hazard? (Food Additives & Contaminants A 25(11):1297). Lungarini S, Aureli F, Coni E, 2008. doi.org
- Ceylon cinnamon vs cassia. Export Development Board do Sri Lanka, 2017. srilankabusiness.com
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