Alho negro a fundo · o composto
S-alil-cisteína: o que é e quanto há no alho negro
- 161,22 g/mol C₆H₁₁NO₂S, um aminoácido com enxofre (PubChem)
- ~100× de diferença de SAC entre alhos negros publicados, em base seca (Ryu e Kang, 2017; Pakakaew, 2022)
- 0,25–1,25 mg de SAC por dia nos ensaios em pessoas com extratos de alho (Serrano, 2023; Valls, 2022; Ried, 2018)
A S-alil-cisteína (SAC) é um aminoácido com enxofre, de fórmula C₆H₁₁NO₂S[1], que existe em pouca quantidade no alho fresco e aumenta quando ele envelhece: vem de outra molécula do alho, a γ-glutamil-S-alil-cisteína, quebrada por uma enzima e, em temperatura alta, pelo próprio calor[2]. É o composto que os rótulos de alho negro destacam, mas o teor publicado varia cerca de 100 vezes entre estudos, com processos e métodos diferentes[5][3]. Abaixo: quanto há, o que se sabe em pessoas e por que quase nenhum rótulo informa.
Resposta curta
- A SAC se forma no próprio alho, a partir da γ-glutamil-S-alil-cisteína, por uma enzima em temperatura moderada e pelo calor acima dela[2].
- Uma revisão de 2021 estima de 3 a 6 vezes mais SAC no alho negro que no fresco[8], e outra, de 2017, de 4 a 8[5]; em números, de 8,55 a 874,26 mg por 100 g de base seca, conforme o processo[5][3].
- Não encontramos ensaio em pessoas com SAC isolada: os estudos usam extratos de alho com 0,25 a 1,25 mg de SAC por dia, e o efeito não pode ser atribuído só a ela[14][15][13].
- Em ratos, camundongos e cães, a SAC tomada pela boca é quase toda absorvida[9]; em pessoas, um estudo de 2002 relata meia-vida acima de 10 horas[12].
Ficha rápida
- Fórmula e massa
- C₆H₁₁NO₂S, 161,22 g/mol (PubChem, CID 9793905)
- Outros nomes
- S-alil-L-cisteína, deoxialiina; SAC é a sigla dos artigos
- Solubilidade
- Ligeiramente solúvel em água (JECFA, via PubChem)
- De onde vem
- Da γ-glutamil-S-alil-cisteína, por enzima ou pelo calor
- No alho fresco
- 19,61 a 23 µg/g, conforme a revisão
- No alho negro
- 8,55 a 874,26 mg/100 g em base seca, conforme o processo
- Absorção em animais
- 87,2% a 103,0% (ratos, camundongos e cães, 1994)
- Ensaio com SAC isolada em pessoas
- Nenhum encontrado até out/2026
O que é S-alil-cisteína?
É um aminoácido com enxofre, de fórmula C₆H₁₁NO₂S e massa molar de 161,22 g/mol, registrado no PubChem, a base de compostos da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, com o número 9793905[1]. Também aparece como S-alil-L-cisteína e deoxialiina, nome que indica a aliina sem o átomo de oxigênio[1]; SAC é a sigla usada nos artigos.
O comitê de aditivos alimentares da FAO e da OMS (JECFA), citado pelo PubChem, registra a SAC como ligeiramente solúvel em água e pouco solúvel em etanol[1]. Textos técnicos sobre o extrato de alho envelhecido a incluem entre os derivados de cisteína solúveis em água que se formam no envelhecimento[4].
| Característica | S-alil-cisteína (SAC) | Alicina |
|---|---|---|
| De onde vem | Da γ-glutamil-S-alil-cisteína, no envelhecimento[2] | Da aliina[4] |
| Estabilidade | Estável no extrato envelhecido[4] | Instável: logo vira outros compostos[2] |
| No alho negro | Sobe em relação ao fresco[5] | Cai: 20 mg/100 g, contra 345 no alho cru, num estudo[5] |
| Absorção | De 87,2% a 103,0%, em animais[9] | Os compostos que ela forma são pouco absorvidos e instáveis no corpo[4] |
Como a S-alil-cisteína se forma no alho negro?
Ela nasce da γ-glutamil-S-alil-cisteína (GSAC), que o alho fresco já tem. Entre 30 e 50 °C, uma enzima do próprio alho, a γ-glutamil transpeptidase, corta a GSAC e libera a SAC; em temperatura mais alta, a enzima para de funcionar e a quebra continua pelo calor, sem enzima[2]. No alho cru, a SAC aparece em pouca quantidade[4][8].
Dá para ver a troca acontecendo: num estudo tailandês, a GSAC do alho pré-tratado e mantido a 80 °C caiu de 1.104 para 250 mg por 100 g de base seca em uma semana, enquanto a SAC subia[3]. Como a enzima trabalha melhor em temperatura moderada e o calor prolongado também consome SAC, o teor final depende do processo inteiro. O guia sobre o que os dias de processo mudam no alho negro mostra por que mais tempo não rende, por si só, mais SAC.
Quanta S-alil-cisteína tem o alho negro?
De poucos a centenas de miligramas por 100 g, conforme o processo. Em base seca, os valores publicados vão de 8,55 mg/100 g, em alho feito a 85 °C por 45 dias, a 874,26 mg/100 g, em alho de uma semana a 80 °C com pré-tratamento: cerca de 100 vezes, entre estudos que diferem também no método[5][3].
Uma revisão de 2021 estima de 3 a 6 vezes mais SAC no alho negro que no fresco[8]; outra, de 2017, relata de 4 a 8 vezes[5]. As duas comparam estudos com processos e métodos diferentes, por isso as faixas não coincidem.
Todos em base seca. 70 °C: 781,98 mg/kg convertidos para 78,20 mg/100 g. Métodos de medição diferentes entre laboratórios. Fontes: Ryu e Kang, 2017 (resumindo Bae e colegas, 2014)[5]; Manoonphol e colegas, 2023[6]; Pakakaew e colegas, 2022[3].
| Amostra | SAC | Base |
|---|---|---|
| Alho fresco (revisão)[2] | 19,61 µg/g | não informada |
| Alho fresco (revisão)[8] | 21–23 µg/g | úmida |
| Alho fresco tailandês[6] | não detectada | limite de 3,8 mg/kg |
| Alho negro tailandês, 70 °C, 12 dias[6] | 527,57 mg/kg | úmida |
| Mesmo alho negro[6] | 781,98 mg/kg | seca |
| Dentes de alho negro à venda na Coreia[7] | 22,28–63,71 mg/100 g | úmida |
| Extratos líquidos à venda na Coreia[7] | 0,31–27,22 mg/100 mL | líquido |
A linha “não detectada” vem de um estudo cujo método só enxerga a partir de 3,8 mg/kg; outras análises acharam de 19 a 23 µg/g (19 a 23 mg/kg) no alho fresco[2][8]. Atenção às unidades: base seca é o alho sem a água, e o mesmo alho negro tailandês tem 527,57 mg/kg na base úmida e 781,98 mg/kg na seca[6]. A Tailândia exige mais de 160 mg/kg, em base úmida, no alho negro pronto para comer, segundo o mesmo estudo[6].
Para que serve a S-alil-cisteína em pessoas?
Não há resposta comprovada. Não encontramos ensaio em pessoas com SAC isolada: os estudos usam extratos de alho que contêm SAC, de 0,25 a 1,25 mg por dia, e o efeito medido não pode ser atribuído só a ela[14][15][13]. Em animais, a SAC tomada pela boca é quase toda absorvida: 98,2% em ratos, 103,0% em camundongos e 87,2% em cães[9].
Em pessoas, o dado de absorção é antigo e curto. Um estudo de 2002, com voluntários que tomaram suplemento de alho com SAC, relata absorção rápida, meia-vida acima de 10 horas e excreção acima de 30 horas, sem detalhar quantas pessoas nem a dose no resumo[12]. Segundo uma revisão de 2025, nesse mesmo estudo a SAC ainda era detectada no sangue 24 horas depois da ingestão[11]. Em ratos, a meia-vida foi de 1,2 hora[11]; em cães, cerca de 12 horas, em parte porque o rim a reabsorve[10].
| Estudo | Produto e SAC por dia | Em quem | O que foi visto |
|---|---|---|---|
| Ried et al., 2018, ensaio GarGIC[13] | Extrato de alho envelhecido (não é alho negro), 1,2 g com 1,2 mg de SAC | 49 pessoas com pressão alta não controlada, 12 semanas, com placebo | A pressão sistólica ficou 10 mmHg abaixo da do placebo; também mediu microbiota e inflamação; financiado pelo fabricante do extrato |
| Serrano et al., 2023[14] | Extrato de alho negro envelhecido (ABG10+), 250 mg com 0,25 mg de SAC | Adultos com hipertensão grau I já medicados, 12 semanas, com placebo | A pressão sistólica medida em casa caiu 1,8 mmHg; financiado pelo fabricante do extrato |
| Valls et al., 2022[15] | O mesmo tipo de extrato, 250 mg com 1,25 mg de SAC | 67 pessoas com colesterol moderadamente alto, cruzado, 6 semanas | A pressão diastólica ficou 3,6 mmHg abaixo da do placebo |
Repare na segunda e na terceira linha: os dois estudos usam comprimidos com 250 mg de extrato do mesmo fabricante, um declara 0,25 mg de SAC e o outro 1,25 mg, e nenhum descreve como mediu[14][15]. Os títulos dos dois artigos falam em “optimized aged garlic extract”, mas o produto testado é extrato de alho negro envelhecido. Os estudos com alho negro em pessoas estão comparados no guia do alho negro, com o tamanho de cada efeito.
A S-alil-cisteína tem dose segura definida para pessoas?
Não encontramos. O dado de toxicidade publicado é de animais: dose letal média acima de 54,7 milimols por quilo, pela boca, em camundongos e ratos, segundo estudo de 2002[12]. Pela massa molar de 161,22 g/mol[1], isso passa de 8,8 g por quilo de peso (conta nossa), muito acima de qualquer quantidade estudada em pessoas.
As cautelas que valem para quem toma alho em cápsula vêm do alho, não da SAC isolada: anticoagulante, cirurgia, gestação e alguns remédios. A página sobre alho, canela e orégano junto com remédio reúne cada caso.
Por que quase nenhum rótulo informa a S-alil-cisteína?
Porque o número exige laudo e varia muito entre lotes. A SAC é medida por cromatografia líquida (HPLC), e cada laboratório usa um método: um estudo tailandês preparou a amostra com cloreto de dansila e leu a 250 nm[6]; outro leu direto a 205 nm[3]. Em extratos de alho negro vendidos na Coreia, ela foi de 0,31 a 27,22 mg/100 mL[7].
Os autores desse levantamento pediram padronização[7]. Para comparar produtos, o que serve é a SAC em miligramas por porção, com o laudo do lote e o método. “Rico em S-alil-cisteína”, sem número, não compara. O mesmo vale para o número grande da embalagem, explicado no guia sobre como ler 6.000 mg equivalentes no rótulo.
Perguntas frequentes
S-alil-cisteína é a mesma coisa que alicina?
Não. A alicina vem da aliina e se desfaz rápido; a S-alil-cisteína vem da γ-glutamil-S-alil-cisteína e é estável (Kodera e colegas, 2020). No alho negro, a alicina cai e a S-alil-cisteína sobe.
Alho negro tem mais S-alil-cisteína que alho cru?
Em geral, sim: de 3 a 6 vezes mais, segundo uma revisão de 2021 (Ahmed e Wang); outra, de 2017, relata de 4 a 8 vezes (Ryu e Kang). O teor final depende da temperatura, da umidade e do tempo do processo.
Quanto de S-alil-cisteína tem uma cápsula de alho negro?
Só o fabricante pode dizer, com laudo do lote. Rótulos que só dizem “rico em S-alil-cisteína” não informam a quantidade. Nos ensaios em pessoas, os comprimidos traziam de 0,25 a 1,25 mg.
S-alil-cisteína é solúvel em água?
O comitê de aditivos da FAO e da OMS, citado pelo PubChem, registra a S-alil-cisteína como ligeiramente solúvel em água e pouco solúvel em etanol. Textos técnicos sobre o extrato de alho envelhecido a descrevem entre os derivados de cisteína solúveis em água.
S-alil-cisteína tem efeito colateral?
Não encontramos estudo de efeito colateral da S-alil-cisteína isolada em pessoas. O dado de toxicidade publicado é de animais (Kodera e colegas, 2002). Os efeitos conhecidos, como mau hálito e desconforto digestivo, são do alho e dos preparados de alho.
Cozinhar o alho negro destrói a S-alil-cisteína?
Não encontramos estudo sobre cozinhar o alho negro já pronto. Na fabricação, a S-alil-cisteína cai com o aquecimento prolongado, e em 162 dias de geladeira caiu 14,64% (Manoonphol e colegas, 2023).
Fontes
- (+)-S-Allylcysteine, CID 9793905 (propriedades, sinônimos e solubilidade do JECFA), consultado em outubro de 2026. PubChem, National Library of Medicine (EUA), 2026. pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
- Black garlic: evolution of the chemical composition and broad biological activities (J Agric Food Chem 73:27933). Vecchi V, Sabbioni G, Altieri MT, Breveglieri G e colegas, 2025. doi.org
- The shortest innovative process for enhancing the S-allylcysteine content and antioxidant activity of black and golden garlic (Sci Rep 12:11493). Pakakaew P, Phimolsiripol Y, Taesuwan S, Kumphune S, Klangpetch W, Utama-Ang N, 2022. doi.org
- Chemistry of aged garlic: diversity of constituents in aged garlic extract and their production mechanisms via the combination of chemical and enzymatic reactions (Exp Ther Med 19(2):1574). Kodera Y, Kurita M, Nakamoto M, Matsutomo T, 2020. doi.org
- Physicochemical properties, biological activity, health benefits, and general limitations of aged black garlic: a review (Molecules 22(6):919). Ryu JH, Kang D, 2017. doi.org
- Effect of thermal processes on S-allyl cysteine content in black garlic (Foods 12(6):1227). Manoonphol K, Suttisansanee U, Promkum C, Butryee C, 2023. doi.org
- Assessment of standardization of domestic commercial black garlic extract for S-allyl-L-cysteine and S-1-propenyl-L-cysteine (Food Sci Biotechnol 31(2):253). Woo HJ, Cha GS, Kang MJ, Kyung KH, 2022. doi.org
- Black garlic and its bioactive compounds on human health diseases: a review (Molecules 26(16):5028). Ahmed T, Wang CK, 2021. doi.org
- Pharmacokinetics of the garlic compound S-allylcysteine (Planta Med 60(3):214). Nagae S, Ushijima M, Hatono S, Imai J, Kasuga S, Matsuura H e colegas, 1994. doi.org
- Metabolism, excretion, and pharmacokinetics of S-allyl-L-cysteine in rats and dogs (Drug Metab Dispos 43(5):749). Amano H, Kazamori D, Itoh K, Kodera Y, 2015. doi.org
- Pharmacokinetics of sulfur-containing compounds in aged garlic extract: S-allylcysteine, S-1-propenylcysteine, S-methylcysteine, S-allylmercaptocysteine and others (Review) (Exp Ther Med 29(5):102). Nakamoto M, Kunimura K, Ohtani M, 2025. doi.org
- Physical, chemical, and biological properties of S-allylcysteine, an amino acid derived from garlic (J Agric Food Chem 50(3):622). Kodera Y, Suzuki A, Imada O, Kasuga S, Sumioka I, Kanezawa A e colegas, 2002. doi.org
- The effect of Kyolic aged garlic extract on gut microbiota, inflammation, and cardiovascular markers in hypertensives: the GarGIC trial (Front Nutr 5:122). Ried K, Travica N, Sali A, 2018. doi.org
- Antihypertensive effects of an optimized aged garlic extract in subjects with grade I hypertension and antihypertensive drug therapy: a randomized, triple-blind controlled trial (Nutrients 15(17):3691). Serrano JCE, Castro-Boqué E, García-Carrasco A e colegas, 2023. doi.org
- Effects of an optimized aged garlic extract on cardiovascular disease risk factors in moderate hypercholesterolemic subjects: a randomized, crossover, double-blind, sustained and controlled study (Nutrients 14(3):405). Valls RM, Companys J, Calderón-Pérez L e colegas, 2022. doi.org
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