Alho negro a fundo · o processo

Alho negro fermentado 90 dias: o que os dias de processo mudam

Atualizado em 9 min de leitura15 fontes

7º · cor21º · pico45º · HMF 90 dias no rótulo
  • 21º dia pico dos polifenóis a 70 °C; no 35º dia, já tinham caído (Choi et al., 2014)
  • 7º dia até aqui a S-alil-cisteína subiu; depois caiu com o calor prolongado (Manoonphol et al., 2023)
  • 3,43 mg/g de HMF no 45º dia; até o 10º, não detectado (Chang et al., 2023)

“Fermentado 90 dias” descreve tempo de processo, não um padrão técnico: as revisões descrevem alho negro feito de 15 a 90 dias, entre 60 e 90 °C[2], e nenhuma série de dias que encontramos mediu a S-alil-cisteína até o 90º. Onde há série de dias, os polifenóis chegam ao pico no 21º dia e depois caem[4], enquanto o HMF, composto do escurecimento, só sobe[5]. Abaixo, o que cada etapa muda, o que os 90 dias não garantem e o que perguntar a quem vende.

Resposta curta

  • “Fermentado” é nome comercial: a cor vem da reação de Maillard, com calor e umidade, sem cultura microbiana[1]; até autores que usam a palavra no título dizem que o processo é, mais corretamente, térmico[3].
  • A 70 °C e 90% de umidade, os polifenóis foram de 13,91 mg GAE/g no alho fresco para 58,33 no 21º dia e 48,35 no 35º[4].
  • A S-alil-cisteína subiu até o 7º dia e caiu com o aquecimento prolongado numa câmara a 70 °C[6]; em outro estudo, a 40 °C e a 85 °C, era maior aos 45 dias que após 24 horas[7]. O tempo sozinho não decide.
  • O HMF, ausente até o 10º dia, chegou a 3,43 mg/g no 45º, em base seca do extrato[5]. O único lote publicado com 99 dias não teve mais polifenóis que um de 14 dias a 80 °C[3].

Ficha rápida

Faixa mais citada
60–90 °C, 70–90% de umidade, de 15 a 90 dias (Vecchi, 2025); alguns estudos usaram 40 a 50 °C
Por que escurece
Reação de Maillard, sem microrganismos (NCCEH, 2023)
Cor
Quase preta já no 7º dia a 70 °C (Choi et al., 2014)
pH
6,33 no alho fresco → 3,74 no 35º dia (Choi et al., 2014)
Umidade
64,21% → 32,72% no 7º dia → 29,88% no 35º (Choi et al., 2014)
Pico dos polifenóis
21º dia (70 °C e 90% de umidade) ou 30º dia (70 °C e 80%)
HMF
Não detectado até o 10º dia; 3,43 mg/g no 45º, no extrato (Chang et al., 2023)
O que “90 dias” não informa
Temperatura, umidade e S-alil-cisteína do lote

O que significa “fermentado 90 dias” no rótulo?

Significa que o alho passou cerca de 90 dias no processo, e só isso. O número não informa a temperatura, a umidade nem quanto de S-alil-cisteína o produto tem. As revisões descrevem alho negro feito entre 60 e 90 °C, com 70% a 90% de umidade, de 15 a 90 dias[2]: 90 dias é a ponta longa da faixa, não um padrão de qualidade.

A palavra “fermentado” também pede cuidado. O Centro Nacional de Colaboração em Saúde Ambiental do Canadá (NCCEH) explica que o alho negro não é um fermentado verdadeiro, porque nenhuma cultura ativa participa: é um processo de oxidação e cristalização, com a reação de Maillard[1], a mesma que doura o pão. Um estudo lituano de 2024 que usa “fermentação” no título reconhece que o processo seria “mais corretamente chamado de processo térmico”[3]. Uma revisão de 2025 registra indícios de que microrganismos que vivem dentro do próprio alho possam contribuir[2], mas a cor e o sabor são atribuídos às reações do calor[1][3].

Se o alho negro é ou não fermentado, e o processo em quatro passos, estão no guia completo sobre o que é o alho negro. Aqui, o foco é o que acontece com o passar dos dias.

O que muda no alho a cada semana de processo?

No alho negro, a maior parte da mudança vem na primeira semana. Na série mais detalhada, a 70 °C e 90% de umidade, a umidade caiu de 64,21% para 32,72% até o 7º dia e a cor ficou quase preta (luminosidade de 68,44 para 15,67, numa escala em que 0 é preto)[4]. Depois, o pH segue caindo e os açúcares sobem até o 21º dia, quando se estabilizam[4].

Alho negro a 70 °C e 90% de umidade, do dia 0 ao 35
Dia0714212835
Umidade%64,2132,7231,7731,1229,5529,88
pH6,335,494,414,224,073,74
Açúcares redutoresg/kg1,522,7312,4215,9615,9816,07
Polifenóis totaismg GAE/g13,9125,8135,2858,3355,2548,35
Flavonoidesmg RE/g3,225,388,3415,3716,2615,70

GAE: equivalentes de ácido gálico; RE: equivalentes de rutina. A barra de cada célula é proporcional à própria linha; o destaque marca o pico dos polifenóis. Do 21º ao 35º dia, açúcares e flavonoides não mudaram de forma estatisticamente significativa. Polifenóis e flavonoides foram medidos no extrato aquoso. Fonte: Choi, Cha e Lee, Molecules, 2014[4].

Os polifenóis contam a parte que mais surpreende: sobem até o 21º dia e depois caem, de 58,33 para 48,35 mg GAE/g no 35º[4]. Em outro estudo, a 70 °C e 80% de umidade, o pico veio no 30º dia, com 74,86 mg GAE/g em base seca, e também caiu depois[5]. Os números dos dois estudos não se comparam entre si (métodos de extração diferentes), mas o desenho se repete: existe um ponto alto, e passar dele não acrescenta.

A velocidade depende da temperatura. Uma revisão de 2017 registra que, a 70 °C, o alho envelhece duas vezes mais rápido que a 60 °C, e que a 90 °C ele fica pronto antes, mas com gosto amargo e azedo[15]. Pelo critério de HMF usado num estudo de 2016, o alho ficou pronto em cerca de 9 dias a 90 °C, 21 dias a 80 °C e 33 dias a 70 °C[14]. Esses tempos são de estufas com controle; para a cozinha, o guia sobre quanto calor e quantos dias o alho negro caseiro exige mostra os limites de segurança.

Mais dias de processo dão mais S-alil-cisteína?

Depende do processo, e o tempo sozinho não decide. Numa câmara tailandesa a 70 °C e 80% de umidade, a S-alil-cisteína (SAC) subiu até o 7º dia e caiu “drasticamente” depois; na produção em escala industrial, o processo parou no 12º dia[6]. Já num estudo coreano com 70% de umidade, a 40 °C e a 85 °C, a SAC era maior aos 45 dias que após 24 horas[7].

Quando a S-alil-cisteína chegou ao máximo, em quatro estudos
EstudoProcessoPico da SACDepois do pico
Manoonphol et al., 2023[6]70 °C, 80% de umidade, câmara de 100 kgPor volta do 7º diaCaiu com o aquecimento prolongado; em escala industrial, o processo parou no 12º dia
Shin et al., 2024[8]Rampa de 45 a 77 °C (ou 85 °C), descendo depois a 59 °C (ou 56 °C); 15 dias4º dia: 93,3 e 91,4 mg/100 gCaiu até 29,8 e 50,5 mg/100 g no 15º dia
Pakakaew et al., 2022[9]Pré-tratamento com cloreto de cálcio e congelamento; 60 ou 80 °C1ª semanaNa 2ª semana, quatro vezes menos (60 °C) e seis a sete vezes menos (80 °C)
Bae et al., 2014, via revisão[7]40 a 85 °C, 70% de umidade, até 45 diasMaior aos 45 dias que em 24 horas (a revisão não mostra os dias intermediários)Mais SAC na temperatura baixa: 12,47 mg/100 g a 40 °C e 8,55 a 85 °C, em base seca

No estudo tailandês de 2022 da tabela (Pakakaew e colegas), uma amostra comercial descrita como feita a 60 °C por 2 meses tinha 150,86 mg de SAC por 100 g de base seca, contra 874,26 no alho de uma semana a 80 °C[9]. É uma comparação de laboratório, com pré-tratamento, mas mostra que mais tempo não virou mais SAC. A página S-alil-cisteína: o que é e quanto há no alho negro reúne os teores publicados, com as unidades de cada um.

O HMF aumenta com os dias de processo?

Aumenta. O 5-hidroximetilfurfural (HMF), composto que se forma quando açúcares escurecem com o calor, não foi detectado até o 10º dia a 70 °C e 80% de umidade, e chegou a 0,12 mg/g no 20º, 1,81 no 30º, 3,04 no 40º e 3,43 mg/g no 45º, em base seca do extrato[5].

HMF no alho negro a 70 °C e 80% de umidade
20º dia0,12 mg/g30º dia1,81 mg/g40º dia3,04 mg/g45º dia3,43 mg/g

Em base seca do extrato em água quente. Nos dias 0, 5 e 10, o HMF não foi detectado. Fonte: Chang, Lin e Wu, Foods, 2023.

Para dar escala: o Programa Nacional de Toxicologia dos Estados Unidos (NTP) descreve o HMF como presente em toda a dieta, acima de 1 g/kg em frutas secas e caramelo e até 6,2 g/kg em café solúvel[10]. Os 3,43 mg/g do 45º dia equivalem a 3,43 g/kg, mas em base seca do extrato, então a comparação vale só como ordem de grandeza. Uma revisão de 2025 relata que o HMF aumenta mais de seis vezes quando o processo passa de 25 para 90 dias[2].

O que se sabe sobre o efeito do HMF vem de animais. No estudo de dois anos do NTP, com doses dadas por sonda, houve “alguma evidência” de tumor benigno de fígado em camundongas fêmeas, e nenhuma evidência em ratos e em camundongos machos[10]. Não encontramos limite oficial de HMF para alho negro nem estudo em pessoas; uma revisão de 2025 conclui que ainda não está claro se essa exposição traz risco[2].

Existe estudo com alho negro de 90 dias ou mais?

Poucos, e só um comparou polifenóis com lotes curtos: Paulauskienė e colegas (2024), com 99 dias a 60 °C e 85% de umidade. Esse lote teve 402 mg GAE/100 g de polifenóis, igual ao de um lote de 28 dias a 50 °C e menor que os 571,75 de um lote de 14 dias a 80 °C[3].

Os autores escrevem que os 99 dias “podem ter impacto negativo” nos polifenóis[3].

O estudo tem um limite importante: temperatura, umidade, embalagem e tempo mudaram juntos entre os três lotes, então ele não isola o efeito dos dias[3]. Ele não mediu S-alil-cisteína nem HMF. O que dá para dizer é que, nesse lote longo, mais tempo não trouxe mais polifenóis; e, pela revisão de 2025, o HMF sobe junto com os dias[2].

O que perguntar a quem vende alho negro “90 dias”?

Três informações dizem mais que os dias: a temperatura e a umidade do processo, a S-alil-cisteína por porção medida em laudo e os miligramas de extrato por cápsula. Em extratos de alho negro vendidos na Coreia, a SAC variou de 0,31 a 27,22 mg/100 mL entre produtos, e os autores pediram padronização[11].

  1. Temperatura e umidade. Mudam a velocidade, o sabor e o ponto em que a S-alil-cisteína para de subir[6][15].
  2. S-alil-cisteína por porção, com laudo do lote. É a forma de comparar um produto com outro; “rico em” sem número não compara.
  3. Miligramas de extrato por cápsula. O número grande da frente da embalagem costuma ser o equivalente em alho fresco: a página o que quer dizer 6.000 mg equivalente faz a conta.
  4. Se os 90 dias incluem descanso depois do aquecimento. Nenhuma fonte primária que lemos descreve uma etapa de maturação em temperatura ambiente; vale perguntar o que o número soma.

Perguntas frequentes

Alho negro de 90 dias tem mais HMF?

Pelo que se publicou, sim: uma revisão de 2025 relata que o HMF aumenta mais de seis vezes quando o processo passa de 25 para 90 dias (Vecchi e colegas). Não encontramos limite oficial de HMF para alho negro.

“Fermentado” no rótulo quer dizer que há bactérias ou leveduras no alho negro?

Em geral, não. O alho negro comum é feito só com calor e umidade, sem cultura microbiana (NCCEH, 2023). Existe alho negro fermentado com levedura, citado numa revisão de 2017 (Kimura e colegas), mas é outro produto.

Alho negro de 90 dias é melhor que o de 30 dias?

Nenhum estudo mostrou isso. Na maioria das séries publicadas, polifenóis e S-alil-cisteína chegam ao pico até o 30º dia e depois caem; uma exceção coreana teve mais S-alil-cisteína aos 45 dias. Já o HMF continua subindo (Choi, 2014; Manoonphol, 2023; Chang, 2023).

Alho negro de 90 dias serve contra parasitas?

Nenhum estudo em pessoas com alho negro mediu efeito sobre parasitas, com 90 dias ou com qualquer outro tempo. Em laboratório, a suspensão de alho negro de 12 dias não inibiu as bactérias testadas, e a de alho cru inibiu (Addazii e colegas, 2025). A Anvisa lembra que não há comprovação de que o alho trate infecções (2026).

A cor preta mostra que o alho negro está mais pronto?

Não. A 70 °C, a cor fica quase preta já no 7º dia (Choi e colegas, 2014), muito antes do pico de polifenóis. A cor não mede S-alil-cisteína nem tempo de processo.

Fontes

  1. Black garlic: food safety considerations during production and storage. Chen T — NCCEH, National Collaborating Centre for Environmental Health (Canadá), 2023. ncceh.ca
  2. Black garlic: evolution of the chemical composition and broad biological activities (J Agric Food Chem 73:27933). Vecchi V, Sabbioni G, Altieri MT, Breveglieri G e colegas, 2025. doi.org
  3. Changes in garlic quality during fermentation under different conditions (Foods 13(11):1665). Paulauskienė A, Kulbokas Š, Zvicevičius E, Tarasevičienė Ž, 2024. doi.org
  4. Physicochemical and antioxidant properties of black garlic (Molecules 19(10):16811). Choi IS, Cha HS, Lee YS, 2014. doi.org
  5. Optimization of the black garlic processing method and development of black garlic jam using high-pressure processing (Foods 12(8):1584). Chang WC, Lin WC, Wu SC, 2023. doi.org
  6. Effect of thermal processes on S-allyl cysteine content in black garlic (Foods 12(6):1227). Manoonphol K, Suttisansanee U, Promkum C, Butryee C, 2023. doi.org
  7. Physicochemical properties, biological activity, health benefits, and general limitations of aged black garlic: a review (Molecules 22(6):919). Ryu JH, Kang D, 2017. doi.org
  8. Effect of temperature conditions on the physicochemical quality of aged black garlic (Foods 13(23):3974). Shin JH, Kang MJ, Lee BH, Kang D, 2024. doi.org
  9. The shortest innovative process for enhancing the S-allylcysteine content and antioxidant activity of black and golden garlic (Sci Rep 12:11493). Pakakaew P, Phimolsiripol Y, Taesuwan S, Kumphune S, Klangpetch W, Utama-Ang N, 2022. doi.org
  10. Toxicology and carcinogenesis studies of 5-(hydroxymethyl)-2-furfural in F344/N rats and B6C3F1 mice (gavage studies), TR-554. National Toxicology Program (NTP/NIEHS, EUA), 2010. ntp.niehs.nih.gov
  11. Assessment of standardization of domestic commercial black garlic extract for S-allyl-L-cysteine and S-1-propenyl-L-cysteine (Food Sci Biotechnol 31(2):253). Woo HJ, Cha GS, Kang MJ, Kyung KH, 2022. doi.org
  12. Footprint of domestic processing on safety and functional properties of Italian black garlic (Foods 14(15):2595). Addazii D, Cevoli C, Casciano F, Ferioli F, Gallina Toschi T, Gianotti A, Nissen L, 2025. doi.org
  13. Checamos: alho NÃO é antibiótico. Saiba quais são os perigos para a sua saúde. Anvisa, 2026. gov.br
  14. Black garlic and its bioactive compounds on human health diseases: a review (Molecules 26(16):5028), que resume Zhang e colegas, 2016. Ahmed T, Wang CK, 2021. doi.org
  15. Black garlic: a critical review of its production, bioactivity, and application (J Food Drug Anal 25(1):62). Kimura S, Tung YC, Pan MH, Su NW, Lai YJ, Cheng KC, 2017. doi.org

Sobre esta página

Quem escreveu: equipe editorial da OROVITA, a partir das fontes listadas acima, abertas e conferidas uma a uma em outubro de 2026. Cada número traz a fonte e o ano; nada foi arredondado sem aviso.

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